Brasil viveu o mito do astronauta brasileiro na Apollo 12

Era novembro de 1969 e o Brasil ainda estava eufórico com o milésimo gol de Pelé, mas uma pequena comunidade rural do centro-norte de Santa Catarina tinha outro motivo para ficar agitada: a viagem da Apollo 12 à Lua. 

O comandante daquela missão da Nasa, a agência aeroespacial norte-americana, chamava-se Charles Conrad, então um exímio piloto e experiente astronauta de 39 anos de idade formado em engenharia aeronáutica pela Universidade Princeton.

 E uma série de coincidências fez muita gente acreditar que o comandante da primeira alunissagem de precisão em um local pré-selecionado teria nascido no Brasil, mais precisamente em Maratá, uma pequena comunidade agrícola fundada por colonos alemães na zona rural da Porto União, no centro-norte catarinense.

 Ninguém sabe ao certo como a confusão começou. Conta-se que uma camponesa teria visto uma fotografia do capitão Charles Conrad em um jornal da época e notado despretensiosamente alguma semelhança entre o terceiro homem a pisar na Lua e integrantes da família Rehme.

 A essa família pertencia Ana Rehme, casada com Joseph Konrad. No Brasil, o casal teve dois filhos:  Erna Anna, nascida em 1928, e Charles, nascido em 2 de julho de 1929, segundo relatos dos familiares. 

Erna Anna chegou a ser registrada no cartório de Porto União, mas a família mudou-se para os Estados Unidos meses depois do nascimento do pequeno Charles Konrad – e ele teria sido registrado por lá.

Da biografia oficial disponível no site da Nasa consta que Charles Conrad, o astronauta, nasceu em 2 de junho de 1930, mas na Filadélfia, no Estado norte-americano da Pensilvânia, e não no Brasil.

O fato é que a onda ganhou força e a história de que Charles Conrad seria brasileiro alcançou a imprensa nos dias que sucederam a viagem da Apollo 12 à Lua, saindo em jornais como O Estado do Paraná e em revistas de circulação nacional, como Manchete e O Cruzeiro

Coincidências e situações ainda mais interessantes vieram à tona quando jornalistas de fora chegaram a Porto União, separada da paranaense União da Vitória apenas pelos trilhos de uma velha ferrovia, para apurar mais profundamente a história. 

Dizia-se que Conrad teria chegado a ser batizado na cidade. No entanto, as páginas com os nomes de crianças batizadas entre 1928 e 1932 na igreja matriz de Porto União iniciados com a letra C haviam sido arrancadas. A diferença na grafia do sobrenome não passaria de um detalhe sem importância e de uma situação relativamente comum. 

Na época, quando a história começou a sair na imprensa brasileira, a Nasa apressou-se em desmentir a versão e forneceu informações biográficas do astronauta. A negativa da Nasa, porém, não foi muito bem recebida pela população local e acabou dando origem a teorias conspiratórias segundo as quais os Estados Unidos não queriam compartilhar com outras nações o êxito de seu programa espacial. 

Com o passar das décadas, a história arrefeceu e entrou em um terreno nebuloso no qual fato e boato se confundiam. E um mero caso de homônimo transformou-se numa espécie de lenda regional. 

Em 2006, a versão de que Charles Conrad seria brasileiro voltou à tona por ocasião da ida do brasileiro Marcos Pontes à estação espacial internacional. A história ganhou a internet, desta vez com o viés de que Marcos Pontes não era o primeiro brasileiro a ir ao espaço. 

Nascida na colônia de Maratá, Irene Webe, funcionária da companhia local de fornecimento de energia elétrica, relatou ao Estado que seus pais conviveram com a família Konrad, mas o assunto tornou-se uma espécie de tabu. “Havia um certo clima de medo. Ninguém gostava muito quando se tocava no assunto”, contou. 

“Houve muito estardalhaço na época e as pessoas ficaram com medo”, acredita o cientista social Ari Passos, supervisor de cultura de Porto União. “Maratá é uma colônia pequena, isolada”, justifica. 

O Estado buscou contato com descendentes da família ainda no Brasil, mas encontrou resistência. Numa conversa informal por telefone, uma mulher que seria sobrinha-neta limitou-se a confirmar que seu tio-avô não era o astronauta. 

E nem poderia. Seu tio-avô, Charles Konrad, até pouco tempo atrás ainda trocava correspondências com os pais dela. E Charles Conrad, o astronauta, faleceu em acidente motociclístico em julho de 1999, dias antes das comemorações dos 30 anos da viagem do homem à Lua. 

Além disso, ao divulgar os dados biográficos do capitão Charles Conrad, a Nasa forneceu uma informação à qual, aparentemente, deu-se pouca atenção e que já serviria para esclarecer de uma vez por todas a confusão: o astronauta chamava-se Charles Conrad Junior; portanto, o pai dele chamava-se Charles, e não Joseph. (Agência O Estado).

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